Saiba como a organização financeira pode fazer você crescer

Veja como um planejamento familiar é semelhante à organização de um país quando se trata de ganhos, gastos e investimentos.

O endividamento e a inadimplência têm atingido a cada mês índices recordes e impactando a vida dos brasileiros. Só para se ter uma ideia da dimensão do problema, uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) revelou que quatro em cada dez brasileiros adultos estavam negativados em Outubro, ou seja, 40% da população (64,87 milhões de pessoas), o maior contingente de toda a série histórica iniciada há oito anos.

O levantamento traçou ainda o perfil daqueles que entraram para a lista de inadimplentes em Outubro deste ano: há um equilíbrio entre as mulheres (50,85%) e os homens (49,15%). Já com relação à idade, destacam-se aqueles entre 30 e 39 anos (23,92%). As pessoas devem, em média, R$3.694,06 a cerca de dois credores. Entre as companhias com mais pagamentos a receber estão as instituições bancárias e as concessionárias de água e luz.

Não existe apenas um motivo para a existência desse cenário: ele é fruto da soma de vários fatores que têm elevados as despesas e, consequentemente, dificultado o fechamento das contas no fim do mês. O aumento do preço de alimentos e itens essenciais, os altos juros e o desemprego incentivaram a busca pelo crédito, que culminou no aumento da inadimplência. Uma das evidências que confirmam essa relação de causa e consequência é a pesquisa do Serasa Experian que revelou que “as dívidas de cartão de crédito impactam 53% dos brasileiros endividados”.

Se fazer um cartão ou pedir um empréstimo são ações fáceis e parcelar as compras é comum, sair de uma situação de aperto exige esforço do endividamento e de cada integrante da família. Por isso, o melhor é a prevenção.

Mudando Hábitos

Todo bom orçamento familiar parte do mesmo ponto: avaliação dos ganhos e das despesas da casa. Entre os ganhos, também chamados de receita, estão os salários e benefícios recebidos. Já as despesas são divididas em duas categorias: fixas e variáveis. As primeiras são pagas mensalmente com valores semelhantes, como aluguel ou mensalidade escolar. Já as variáveis, apesar de essências, não têm valor exato, como compras no mercado, conta de energia elétrica, etc.

Para a especialista em educação financeira Teresa Tayra, ter uma visão clara da situação financeira da família permite que conquistas sejam obtidas: “um orçamento saudável é aquele em que é possível pagar as despesas e ainda realizar desejos. A vida não é apenas pagar contas, mas também realizar algo”. Só que para chegar nesse patamar é preciso ter disciplina: “o movimento saudável é aquele em que primeiro se poupa para depois comprar, mas muitos se tornam reféns das próprias conta quando primeiro compram para depois pagar”.

Estabelecer quais são os objetivos, os sonhos e as conquistas a serem realizadas é um passo essencial para deixar de fazer escolhas aleatórias e baseadas na emoção ou um gatilho gerado pelas propagandas. “O dinheiro deve ser um assunto natural para a família, inclusive entre os filhos, pois é importante envolvê-los para construir esse orçamento saudável.

Segundo ela, a clareza em relação à situação econômica e aos objetivos da família, a definição dos desejos de cada um e a organização das prioridades facilitam o engajamento de todos na hora de poupar.

Driblando os vilões

Deixar de pagar as contas em dia, por exemplo, acarreta juros que vão minando o orçamento aos poucos. Assim, adotar um método eficiente de organização (a agenda, o débito automático ou o calendário on-line) é fundamental para evitar transtornos.

Outro ponto importante é o cartão de crédito, que é considerado um dos grandes problemas do brasileiro. A facilidade de acesso a ele e a falta de instrução financeira fazem com que muitos encarem o limite oferecido, por exemplo, a parte da renda, o que não é verdade. “Muitas vezes a pessoa que paga no crédito não está usando esse recurso de forma inteligente. Há quem só se preocupe em resolver uma situação momentaneamente e comemore que o limite de crédito dela passou, mas não pensa no futuro e acaba tendo prejuízo”, explica Teresa.

Ela sugere que, antes de realizar uma compra, o consumidor avalie se há real necessidade dele e se realmente a família tem condições de adquiri-lo. Mesmo que a compra seja em prestações é preciso avaliar se a parcela cabe no orçamento. “Nem sempre usar o cartão de crédito é ruim. Quem sabe utilizá-lo o tem como amigo e usa os pontos acumulados para trocá-los em viagens ou outros benefícios. Contudo, quem o usa desenfreadamente e não entende os juros que são acrescentados à fatura quando se deixa de pagá-la todo mês, acaba caindo em uma verdadeiro armadilha”.

E, por falar em juros, é preciso destacar que o Brasil tem uma das maiores taxas do mundo. Em outubro, a taxa do crédito rotativo – quando a pessoa deixa de pagar a fatura do cartão ela entra nessa modalidade – chegou a 343,6% ao ano. É como se o valor de uma compra ficasse 3,5 vezes mais cara no final.

O cartão de crédito “deixa você em uma situação em que você não constrói um patrimônio e está sempre como devedor. Além disso, normalmente, quem tem o hábito de usá-lo deixa de fazer uma reserva de emergência e perde a oportunidade de fazer uma boa negociação, já que em algumas situações quando você paga a vista consegue descontos”, ressalta Teresa.

As dívidas de uma lar são como as de um país: devem ser feitas com cuidado para evitar que se tornem impagáveis.

Limites que fazem bem

Lidar com o dinheiro não é um bicho de sete cabeças, mas exige planejamento. Não se trata de ter uma planilha complexa. Basta colocar no papel os ganhos e os gastos essenciais, encaixando as demais despesas dentro do que se pode pagar e planejando onde e como poupar para realizar os desejos. Esse é um exercício constante que exige paciência, mas a ausência dele leva a algumas realizações momentâneas e a uma bola de neve de dívidas.

O mesmo acontece com as contas públicas de um país. O desenvolvimento de uma nação, como o de um lar, depende da saúde financeira. Para isso, em 2016, foi criado no Brasil um teto de gastos para evitar o descontrole do endividamento. Como o nome sugere, a medida prevê um limite do aumento dos gastos para evitar o descontrole do endividamento. Como o nome sugere, a medida prevê um limite do aumento dos gastos do poder público atrelado à inflação do ano anterior. A meta é evitar que o governo endividado tente tapar o “rombo” com a elevação ou criação de novos impostos. Se as contas saudáveis se mantiverem, pode-se investir em educação, saúde, segurança, etc.

Como um país, você também deve trabalhar com inteligência para que a vida financeira de sua família seja saudável. Lembre-se que satisfazer um desejo imediato sem pensar nas consequências traz um prazer fugaz e problemas posteriores. Planejar e agir com sensatez geram a felicidade duradoura.

Para entrar e permanecer no azul é necessário saber exatamente quais as receitas e quais as dívidas fixas e variáveis do lar.

Fonte: Folha Universal – Domingo, 11 de Dezembro de 2022 – Pág 10 e 11.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *